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  • Carol Derschner

Carentes de descanso

O que acontece quando encaramos a necessidade natural de descanso diário como uma perda de tempo ou um atraso contínuo na conquista de nossos objetivos?



Parece que o mundo anda às avessas. Conceitos que poderiam ser naturais andam misturados por todo canto e, muitas vezes, transformados em outras coisas, bem diferentes daquilo que são. E a questão do descanso não foge do caso.


Bom, antes de começar, vamos esclarecer algumas coisas importantes e interessantes: o descanso não pode ser confundido com o ócio enquanto objetivo de vida ou de uso do tempo, ou do puro e simples tédio, no qual não encontramos nada que faça passar o tempo. Não, o descanso não é isso, nem feito para isso.


Se procurarmos olhar a necessidade de descanso com lentes mais naturais, podemos dizer que ele é o oposto do trabalho, ou o a compensação por este, sendo que um não vive sem o outro, pois um precisa do outro. O descanso traz para nós um pouco mais de seu significado quando observado pelo viés de uma vida com sentido de atuação no mundo: preenchida pelo trabalho (não necessariamente uma carreira) e pelo entusiamo da capacidade do agir pessoal, e não de vida ociosa ou sem propósito de ação. O descanso é portanto, a outra ponta da atuação pessoal, podendo ser também considerado como o combustível desta.


Descanso merecido, descanso imerecido?

Continuando nosso olhar sobre o confuso cesto dos conceitos enroladinhos, como lã embaraçada, reconhecemos também a dificuldade atual em estimarmos as quantidades e os valores de todas as coisas. Isso acontece pois, em geral, perdemos a noção de reciprocidade e o que ela seria. Também parece ser característico de uma época que se afastou do caminho do meio e vive pendulando entre extremos e exageros. Mas mesmo para quem não é adepto dos exageros, muitas vezes fica difícil mensurar o próprio valor, o valor do próprio trabalho e quanto merecemos de descanso ou não. Principalmente se não estamos obtendo os resultados que desejamos ou projetamos sobre a vida.


Talvez isso aconteça em parte pois não somos senhores completos do julgamento sobre nosso merecimento. No fim das contas, não temos à vista todos os atos de nossa vida para pesar adequadamente quanto valemos diante do mundo e das pessoas ao nosso redor. Talvez essa tarefa nem não nos caiba! Mas, independentemente disso, é importante ter a reciprocidade entre todas as coisas como medida ou ao menos como norte de nossas ações, de tudo que fazemos e que damos aos outros e a nós mesmos.


Desenrolemos mais um pouco esse complicado novelo. Um vida de doação e serviço se afasta do egoísmo na medida em que busca dar-se ao outro, ao trabalho, a uma causa. Mas ao mesmo tempo, do outro lado desta balança sempre em movimento, está o cuidado consigo próprio, quando oportuno, como possibilidade de um agir melhor, em tudo o que fazemos.


A dedicação ao mercado de trabalho talvez seja um exemplo interessante de ser visto, no qual doamos nossa atuação em troca de algo, e nisso fica bem evidente a medida mais justa das coisas: trabalhar, receber, pagar. Mas quando o assunto é o descanso, muitas vezes temos dificuldade em enxergar quando ele pode ser um merecido descanso ou quando não.


O descanso fica para trás

Vamos além! Confundido por muitos com o tempo livre ou considerado um tempo inútil, não produtivo, existe ainda a tendência de solapar o momento de descanso, em troca de outras coisas, como se ele fosse um tempo sem valor próprio, e que, além de ficar por último, pode servir de moeda de troca e ser intercambiado por coisas mais interessantes para se fazer.


A escravidão do corpo

O que é interessante em tudo isso é que, mesmo quando sabemos que merecemos ou precisamos de descanso, mesmo assim tendemos a colocar mais tarefas sobre o corpo do que seria adequado, pois queremos as tarefas e tudo aquilo que elas nos trazem, muitas vezes como uma criança que quer coisas no supermercado, a todo custo. Se for prestígio e dinheiro, melhor ainda. Mas isso seria certo? Não seria isso uma espécie de escravidão de si próprio para o alcance de determinados objetivos? Cada caso é um caso, mas, ousemos pensar nisso também.


O que nos espanta de tempos em tempos, é que o corpo pode, por fim, acabar se revoltando contra os objetivos da mente quando nossa vida é pautada pelo excesso de atividade. Atividade em demasia, que vai além de uma vida laboriosa e saudável. Quando isso acontece, nos surpreendemos com o fato do corpo, de repente, não fazer mais nossa vontade e se recusar a cooperar conosco.

Não são de hoje as correntes que separam a mente do resto de nosso ser, como uma caixinha (infelizmente) a ser entendida à parte. Uma parte excluída do todo. Penso que não deveria ser assim, mas também, que assim ocorre, quando a própria mente assume padrões excludentes ao bom funcionamento do todo. Muitas vezes, além de estar à parte de nosso ser, ela pode se colocar à parte de nosso corpo também, fustigando-o como um animal cansado. A imagem mental desta frase forte soa terrível, mas quando somos nós a animar este quadro, parece normal. Por que será?


Compreender a diferença entre a vontade mental e sua dinâmica e as dinâmicas naturais, como as do corpo, da natureza e da Terra, revela-nos de súbito uma outra terrível realidade: as forças da natureza têm um ritmo próprio e, não sendo criadas pela nossa mente, obedecem leis que podem ser dissonantes do nosso código pessoal de conduta, ou, como dizemos normalmente: nossa vontade.

Nem muito nem pouco

A medida do descanso adequado só pode ser dada por cada um. Ela pode ser diferente para uma estudante, para um trabalhador do campo ou para um músico. No entanto, o que podemos dizer sobre sua justa medida é que, inserida em uma rotina que consiga se pautar pela reciprocidade e pelo equilíbrio como resultado, as chance de se estar no caminho mais saudável são muitas.


Pode ser que aconteça, no entanto, de nos vermos em situações nas quais o equilíbrio não é possível imediatamente. Uma nova rotina, uma emergência ou problema financeiro, ou mesmo um prazo inflexível que coloca o equilíbrio de ponta cabeça momentaneamente. Nestes casos, observar a vida com o olhar mais aberto, da flexibilidade de quem molda com paciência sobre barro já mais firme, pode nos ajudar a encontrar compensações, ou ao menos, um caminho futuro para ela (neste texto aqui você pode encontrar um pouquinho mais sobre esse assunto também!).


Minha mãe sempre me disse algo muito sábio nos períodos difíceis em que eu não podia ou não conseguia descansar bem. Ela dizia algo como: "isto não está ideal agora, mas pode estar no futuro, trabalhe nesse sentido".


Pode ser que tenhamos uma noite mal dormida, que tenhamos trabalhado no fim de semana. Que tenhamos filhos pequenos ou um parente doente. Que tenhamos dormido tarde ontem ou que quase não tenhamos fechado os olhos na última semana. Se pudermos, no entanto, dar aos poucos um lugar melhor na rotina para o descanso, preenchido pela calma, pelo silêncio e o repouso necessário, quem sabe as vontades da mente possam se aproximar um pouco mais do ritmo natural de todas as coisas...


O dia de descanso semanal

Não é à toa que muitas religiões separam, além do descanso diário e rotineiro, um dia na semana específico para o descanso. Mas diferente de um tempo para distração ou para o puro e simples "desligar do corpo no sofá", esse dia pode ser reservado à pratica da espiritualidade e de atividades que nos auxiliem nessa reconexão. Um dia em que nos voltamos para o sentido de todos os dias da semana que se passaram, para além das coisas materiais. Um dia talvez até bastante ativo, no entanto, dessa vez, espiritualmente. Importante é observar que, mesmo este dia, vivido por aqueles que se dedicam a esta prática, pode ser melhor aproveitado caso o descanso diário também tenha sido observado corretamente.


Entre a exaustão e a elevação do ser existem muitos degraus. Talvez o descanso adequado ao corpo possa encurtar um pouquinho mais essa distância a cada dia. Talvez no fim, venhamos a descobrir que a elevação do ser não é tão extraordinária assim e, menos arrebatadora, cênica e barroca do que muitos imaginam. Talvez nas dobras de uma vida simples e mais equilibrada se esconda, sempre de novo, o caminho para os maiores voos da humanidade...


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